Você sabe o que é Moda Consciente e porque ela está ganhando tanto espaço?

Você sabe o que é Moda Consciente e porque ela está ganhando tanto espaço?

A moda é um conjunto de opiniões, gostos, assim como modos de agir, viver e sentir coletivos e também o uso de novos tecidos, cores e matérias-primas, sugeridos para a indumentária humana por costureiros e figurinistas de renome. Durante todas as épocas do ano são selecionadas novas tendências que mudam incessantemente.

Nesse modelo de consumo padronizado pelo capitalismo, sabe-se que depois da revolução industrial as fábricas passaram a produzir em grande escala levando à um maior consumo, sem limites, mais veloz, radicalmente descartáveis e nem um pouco conscientes. O ser humano se acostumou com a efemeridade das coisas, principalmente de seus itens de moda, antigamente as pessoas compravam jaquetas, blusas e calças que duravam uma década ou até mais e elas não se desfaziam delas por qualquer rasgo, por substituição de tendência de moda ou qualquer problema no decorrer do tempo, elas consertavam e voltavam a usar, pois não se tinha tanta opção como tem atualmente e as coisas eram muito menos acessíveis. Na atualidade, as roupas perderam seu tempo de vida útil, se tornando cada vez mais descartáveis, No entanto aumentou em números exorbitantes as quantidades de roupas que são confeccionadas de vários tipos e opções, no chamado fast fashion (moda rápida) a moda passou a ser dirigida pelas tendências, que são coisas que mudam de maneira extremamente veloz obrigando a indústria correr e produzir mais e mais, sem limites, qualidade, barateando o preço e aumentando o consumo. Nesse viés as pessoas se acostumaram a comprar, usar, jogar fora e comprar novamente é um ciclo vicioso e que traz grandes consequências, seu principal prejudicado é o meio ambiente, de acordo com uma matéria do portal G1 a poluição ambiental, o esgotamento de recursos naturais e problemas relacionados ao bem-estar dos trabalhadores, especialmente pelas multinacionais do setor, são os piores problemas causados pela indústria têxtil e do vestuário.

O meio ambiente é um dos maiores prejudicados pelo consumo desenfreado da esfera da moda porque para atender a demanda da produção do consumo desenfreado é necessário retirar matérias primas da natureza, fabricar materiais com químicas e poluentes, fazer grande uso de energia elétrica e de água, entre outros. Tudo isso, gera emissão de gases poluentes, degradação e devastação ambiental, poluição geral e, consequentemente, a destruição de ecossistemas.
Levando em conta esses problemas causados pelo uso excessivo de recursos naturais na produção, fizemos uma lista, apresentando em números o quanto se é utilizado nas fabricações:

 

  1. Para a fabricação de simples calças ou malhas de poliéster utilizam-se 70 milhões de barris de petróleo todos os anos.
  2. Na produção de uma camiseta comum utiliza-se de mais de 2.700 litros de água apenas para uma única confecção.
  3. Para produzir uma fibra artificial chamada viscose, extraída da celulose que é utilizada para fazer tantas peças de roupa chiques, exige a derrubada de 70 milhões de árvores todos os anos.
  4. O algodão, apesar de ser natural é uma fibra cujo cultivo é o que mais demanda o uso de substâncias tóxicas no mundo, com reais impactos no solo, na água e na atmosfera.
  5. Para a produção de lã que é extraída do corpo das ovelhas,logo após sua extração é utilizado inseticidas sintéticos causando problemas de saúde, contaminando solo, água e fauna, sem contar no grande consumo de energia para secagem e na utilização significativa de água: para cada quilo de lã, são gastos cerca de 150 litros de água.
  6. Para colorir os tecidos: primeiro é necessário tratá-los com algumas soluções químicas — entre elas a soda cáustica — para que os poros entre os fios dos panos fiquem maiores e, assim, absorvam melhor os pigmentos durante o processo de tingimento. Após o banho, os panos são lavados e esticados em um suporte de metal para que eles fiquem bem alinhados. Enquanto ainda estão úmidos, os pigmentos são aplicados. Esse procedimento químico causa graves consequências ao ecossistema.
  7. Os retalhos de tecidos: No Brasil, a estimativa de resíduos têxteis é de 175 mil toneladas/ano. Desse total, apenas 36 mil toneladas são reaproveitadas na produção de barbantes, mantas, novas peças de roupas e fios. Diariamente são descartados, inadequadamente, 12 toneladas de resíduos têxteis (retalhos) produzidos por mais de 1,2 mil confecções. A coleta dos retalhos é realizada de forma desorganizada, sem preocupação com a destinação adequada. Se uma peça for produzida de maneira errada, ela gera aparas e retalhos que atualmente são descartados no lixo comum. Segundo estimativa do Programa da Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o volume de resíduos urbanos deve aumentar do atual 1,3 bilhão de toneladas para 2,2 bilhões de toneladas até 2025. Em relação ao descarte do lixo no Brasil, apenas 58% do total coletado tem como destino os aterros sanitários, terrenos que funcionam de acordo com as exigências legais. O restante é despejado em aterros controlados (24,2%) e em lixões (17,8%), e somente cerca de 4% de todos os resíduos são reciclado.

Porém o drama não para por aí, as condições de trabalho enfrentadas para quem presta seus serviços nessas grandes indústrias são escravas e desumanas. As grandes empresas de moda e vestuário abriram suas fábricas de produção em países onde não existe exigência mínima de salário, idade ou leis regulamentares relativas ao número máximo de horas trabalhadas. Deste modo, o trabalho escravo começou a se espalhar pelos pelos países subdesenvolvidos e até o trabalho infantil se incluiu nessas grandes oficinas.
As maiores lojas de roupas do Brasil como Renner, Marisa, Pernambucanas e Zara foram multadas e processadas por manter seus empregados responsáveis na confecção das roupas em condições totalmente degradantes, humilhantes e desumanas. A grande maioria deles são bolivianos e até crianças bolivianas que muitas das vezes foram aliciados para esse trabalho escravo e por virem morar no Brasil de maneira precária não tem outra opção. Segundo fiscais do ministério do trabalho os funcionários são submetidos a jornadas exorbitantes de trabalho em ambientes insalubres e perigosos, não tem remuneração digna e trabalham em regime de servidão por dívidas que é o trabalho sem receber o salário ou, por vezes, até conseguem receber seus rendimentos mas são bem inferiores ao mínimo adequado, a fim de pagas as dívidas contraídas.

Nesse viés de impactos sócio-ambientais que a produção do fast fashion (moda rápida) causam, outras opções de se adquirir roupas foram adotadas, de maneiras muito mais ambientalistas e responsáveis. Uma verdadeira moda do bem, mais sustentável na maneira de se produzir, causando menos impactos ao meio ambiente, aos animais e mais responsável ao tecido social. Moda sustentável e moda consciente são parecidas mas não são a mesma coisa, entenda:

A moda sustentável, também conhecida como Eco Fashion é uma moda que produz as peças só com recursos e procedimentos que não irão causar impactos ambientais, como os que a gente viu anteriormente. Totalmente voltada a questões ecológicas em todo o processo de produção das peças, utilizando tecidos naturais e reutilizando outros tecidos, uma produção sem químicas, sem desperdícios e sem consequências negativas ao nosso ecossistema. Ao pensar na sustentabilidade de um material, devemos considerar diversos fatores, tais como: a capacidade de renovação da fonte, o processo de como a fibra é transformada em tecido, e a pegada de carbono total do material. Veja alguns dos procedimentos usados na metodologia sustentável:

  • Aplicação de corantes 100% naturais.
  • Aplicação de colas menos tóxicas para que não haja a poluição dos rios, mares, oceanos e lençóis freáticos.
  • Reutilização de tecidos ou outros materiais que foram descartados e desperdiçados. -Uso de tecidos eco-friendly, onde são usadas fibras orgânicas e que são usados menos água e produtos químicos na produção.

Já a moda consciente visa o consumo responsável na moda e por mais que complemente a moda sustentável não é a mesma coisa, enquanto a moda sustentável se preocupa com o meio ambiente e os impactos que a moda rápida causa nele, isto é antes de sua produção, a moda consciente vai além, ela se preocupa em saber como foi a produção da peça, se foi feita por trabalho escravo ou trabalho infantil, leva-se em conta o tipo de tecido ali usado, se esse tecido é possível fazer a reciclagem ou não, nela os consumidores procuram comprar peças que durem mais, evita-se o descarte de roupas velhas ou rasgadas, é a moda da ‘’responsabilidade’’ com a sociedade, o indivíduo que é o consumidor entende que é um agente transformador da sociedade a partir de seu ato de consumo consciente, comprando de forma cuidadosa e não se deixando levar pelas tendências de moda, adquirindo peças que tenham significado e provoquem diálogo entre si.

As características de um consumidor consciente são: Sempre que for comprar alguma peça de roupa se perguntar ‘’Eu realmente preciso disso?’’, periodicamente fazer uma revisão no guarda-roupa e doar as peças que não se usa mais para outras pessoas ou vendê-las em brechós, há a opção de remodelar a peça ou customizá-la também. E na hora das compras sempre optar por tecidos recicláveis, entre comprar uma peça de algodão ou poliéster, o consumidor consciente deverá escolher a que pode ser reciclada que é a de algodão. Levando sempre em consideração a forma com que aquela peça de roupa foi produzida, por funcionários regulamentados, em condições aptas para se trabalhar, tudo isso deve ser levado em conta.

Os adeptos a este estilo de consumo e de vida também , sempre irão fazer compras com propósitos pré-definidos, pensando sempre no coletivo e no futuro também, porque o que você compra e o que descarta não é problema só seu é problema de todo mundo já que dividimos o mesmo planeta e mesmo meio ambiente, onde tudo está interligado. Customizar, reaproveitar e transformar são comportamentos bem vindos na hora de cuidar do planeta.

Há outros estilos de moda também que vieram com o propósito de mudar a maneira como se consome e como nós nos responsabilizamos pela roupa, conheça-os:

  • Zero waste fashion: Também conhecido como desperdício zero, este conceito de zero waste fashion se refere à produção de vestimentas e acessórios que geram pouco ou nenhum resíduo em sua produção. Ele faz parte do movimento eco fashion e moda sustentável e elimina o desperdício durante a fabricação. O designer escolhe padrões que utilizem de forma mais eficiente o tecido e reutiliza retalhos para fazer detalhes de peças. Ele também pode ser dividido em duas abordagens gerais. A moda pré-consumo de lixo zero elimina o desperdício durante sua fabricação, na forma de se produzir, quando o designer cria uma peça de vestuário através do processo de corte de padrões, trabalhando dentro do espaço da largura do tecido. Essa abordagem evita o desperdício porque no corte de roupas se desperdiça muito tecido. Já a moda pós-consumo de lixo zero gera roupas de roupas, reutilizando-as, como roupas de segunda mão, eliminando o desperdício no que normalmente seria o fim da vida útil do produto de uma peça de roupa, criando através dela, outra peça de roupa.
  • Upcycle: Mais comum no meio da moda como Upcycling. É uma tendência que colabora para a redução de lixo por meio de transformações de objetos no fim de sua vida útil que seriam descartados em novos produtos. A utilização de câmaras de ar de pneus para a confecção de artigos de moda vem aumentando e já chegou ao Brasil. A Recman Br produz bolsas e mochilas de alto padrão que se enquadram totalmente na tendência eco chic e moda sustentável.
    Este movimento tem como objetivo transformar resíduos descartados em outros produtos de melhor qualidade e usando menos recursos como a água e energia. Não utiliza-se somente sobras de tecidos mas também tecidos que foram descartados pela sociedade, além de ter todo um movimento sustentável há um movimento consciente também, porque seus funcionários são mais bem remunerados pois há uma complexidade maior em se produzir as peças. Os retalhos são todos cortados a mão e depois unidos para formar a peça de roupa, levando o dobro de tempo de produção e consequentemente eleva-se também o valor da peça, visto todo seu modelo de produção.
  • Slow fashion: É uma transformação no processo criativo e de produção, referindo-se ao uso de materiais e processos produtivos, para uma moda mais ecofriendly é preciso analisar oportunidades que vão além dessas questões. Um dos movimentos mais fortes na moda com uma pegada sustentável é o slow fashion, que compartilha os ideais do movimento slow, assim como a iniciativa slow food, ligada à alimentação. O slow fashion vem na contramão da produção de roupas massivas e de baixa qualidade chamadas ‘’fast fashions’’ e propõe um consumo mais lento como o próprio nome diz, e peças com maior vida útil. O movimento questiona o conceito e a velocidade da moda, e visa um design atemporal que não sai de moda ou tendência, com acabamento de qualidade que proporcione uma durabilidade à peça.

Atualmente, o desenvolvimento da moda sustentável é a principal solução contra a crise ambiental que o planeta enfrenta, já que é considerado o equilíbrio entre, sociedade, natureza e economia. As marcas que funcionam com esse ideal do slow fashion têm uma produção em baixa escala e se assemelham mais a ateliês do que a indústrias, na maior parte das vezes suas peças tem os preços mais elevados porque tem uma durabilidade muito maior do que as convencionais e são produzidas na maioria das vezes de maneira artesanal.

Além destes estilos da nova moda, há alguns conceitos relacionados a eles, como:

Moda ética que leva em consideração todo o impacto da dimensão moral, sociocultural e ambiental inserida na concepção de um produto. Essa definição ganhou um maior destaque em 2004 com um evento realizado em Paris chamado ‘’Ethical Fashion Show’’ que significa ‘’Desfile de moda ético’’. O movimento questiona questões problemáticas da moda, como a exploração do trabalho de funcionários em confecções, submetidos a condições totalmente degradantes e escravas de trabalho.

Em 2013 aconteceu um acidente na cidade de Dakha no Bangladesh, foi um dos maiores acidentes na história da indústria da moda. Um complexo de fábricas desabou, deixando mais de 300 mortos e 1000 feridos, esse dia marcou o mundo da moda e deu origem à uma organização alinhada com os principais valores da moda ética chamada ‘’Fashion Revolution’’ que propõe revolucionar as maneiras de produção, do trabalho desses funcionários e do consumo, propondo questionamentos como ‘’ Quem fez minhas roupas’’ ‘’ Sob quais condições esse funcionário fez?’’, trazendo de maneira real toda a ética e moral para o mundo da moda.

Eco moda
Mais conhecida como moda ecológica ou moda verde, parte do mesmo conceito do eco design. Uma proposta que considera as consequências ambientais em todos os estágios de desenvolvimento de um produto. Nela, reduz-se o consumo de recursos, e são escolhidos materiais e processos que colaborem para diminuir o impacto ambiental durante seu ciclo de vida. Há o uso de tecidos de fibras orgânicas e métodos de produção que minimizem a contaminação de rios e mares, evitando ao máximo produtos químicos poluentes como corantes sintéticos. Algumas alternativas são o algodão orgânico, e fibras de abacaxi, de bambu, de cânhamo, etc. Algumas marcas brasileiras já utilizam o algodão orgânico, na produção de camisetas masculinas e femininas, entre outras peças de roupas. O eco produto é projetado de acordo com um balanço energético e material, quantifica as perdas e possíveis desperdícios, além de pensar em refrear a geração de resíduos sólidos. A moda verde tem grande influência da onda vegana ou eco vegan, pensando sempre no combate a crueldade com animais.

Ao pensar na sustentabilidade de um material, devemos considerar diversos fatores, tais como: a capacidade de renovação da fonte, o processo de como a fibra é transformada em tecido, e a pegada de carbono total do material. De acordo com a fundação Earth Pledge, mais de oito mil produtos químicos são utilizados no processo têxtil e 25% dos pesticidas do mundo são empregados no cultivo de algodão não orgânico. Os esforços para encontrar medidas que reduzam os danos à natureza durante o cultivo da matéria prima, produção e transporte, tornam a moda sustentável tipicamente mais cara do que a fabricada por modelos convencionais.diversas marcas que adotam esse posicionamento oferecem produtos cruelty free, ou seja, sem sem crueldade contra animais.

Eco chic
Muitas pessoas tem medo de adotar esses novos estilos de moda, pensando que as peças seriam cafonas, fora de moda ou feias, nesse ponto de vista nasceu o termo ‘’Eco Chic’’ que vem para provar justamente ao contrário, que é possível cuidar do meio ambiente, tendo responsabilidade social e ecológica e estar totalmente estilosa, elegante, descolada e por dentro da moda. Essa filosofia leva em conta toda a elegância, sofisticação, com muita cor, tecidos e aquele corte especial, em conjunto com todas as preocupações socioambientais. De maneira moderna e muito criativa, que leva em conta a real beleza e estilo social.

Essas duas vertentes são diferentes entre si, entretanto levam a mesma essência que é a responsabilidade, seja ela ambiental ou social. Os conceitos nos dão diversas oportunidades e opções de apoiar e participar da causa, sendo em questionamentos, mudança de hábitos consumistas ou na própria aderência a este estilo de vida. As novas gerações estão muito mais conscientes, visto que os problemas consequenciais de toda esse modelo de moda capitalista que só visa o lucro, não se importando como são produzidas as peças, em quais condições ou que materiais são utilizados já estão acontecendo no nosso ecossistema e em nossa sociedade, não somente na produção como os descartes também trazem graves consequências ao meio ambiente. Sendo assim, a moda consciente e sustentável vem ganhando um grande espaço e inúmeros adeptos, lojas apoiadoras, bazares e brechós.

Não há um convite para ficar fora das modas ou tendências e sim ser mais consciente e responsável pelo que consumimos, como consumimos e depois como descartamos. O universo agradece e as futuras gerações também!

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